Está quase a terminar 2011, o ano que vai ficar na história do país como o virar de página de um certo modelo de desenvolvimento assente no endividamento excessivo do Estado, das empresas e das famílias.
Foi esse modelo que transformou Portugal, em poucas décadas, numa sociedade artificialmente abastada, com um nível de rendimento aparente que não tinha tradução prática na capacidade de produção de riqueza do país, a qual foi decaindo.
Ano após ano, esta discrepância grosseira, traduzida no défice do Estado galopante e no endividamento das famílias e empresas, entre o que a nossa economia produzia e o que os portugueses teimavam, com o Estado incluído, em gastar, só podia acabar como acabou, ou seja na iminência da uma bancarrota, a qual só foi evitada com o recurso a um humilhante empréstimo internacional.
É esse empréstimo, que tem na troika o seu rosto, que justifica as medidas de austeridade que o país enfrenta e vai continuar a enfrentar nos anos vindouros, implicando políticas de austeridade, algumas das quais cegas, que afetam transversalmente setores da sociedade e da economia que em nada contribuíram para esta crise. E por isso injusto o que se está a passar.
Mas, para mal dos nossos pecados, goste-se ou não, só com esse tipo de austeridade e medidas dantescas para muitos portugueses, sobretudo os mais desfavorecidos, é que os credores aceitariam emprestar dinheiro a um país com um histórico de endividamento excessivo crónico.
Pode-se, e bem, questionar se, no plano macroeconómico, o caminho que está a ser seguido é o mais adequado para atingir as metas traçadas pela troika, nomeadamente se as medidas em curso, com os seus efeitos colaterais, não vão matar um doente já em agonia. A reflexão sobre essa matéria tão pertinente ficará para uma próxima oportunidade.
Como cidadão, de 2011, fica-me um travo amargo de intuir que, como noutros momentos aflitivos, mais uma vez não serão responsabilizados os que, pelas políticas adotadas nas últimas décadas, de vários partidos, nos conduziram à situação presente, apesar de terem sido tantas vezes avisados por pessoas de bom-senso.
Nas empresas, quando algo corre mal, os sócios-gerentes são pessoal e duramente responsabilizados pelos eventuais danos causados a terceiros.
Na política, porém, a culpa fica sempre solteira, o que, já se sabe, também explica o afastamento e a desconfiança dos cidadãos face aos políticos.
Eu incluo-me nesse lote de portugueses.